Natal se preparou para receber aquele que se anunciava como seu mais importante evento, a Copa do Mundo de Futebol. O que os grupos políticos tradicionais que administram a cidade não esperavam é que componentes de ordem natural seriam capazes de dissolver como uma aspirina a falsa propaganda oficial que divulgava uma cidade “padrão Fifa” para o evento. 50 horas seguidas de chuvas revelaram o caos de uma cidade rendida a falta de políticas públicas de planejamento de longo prazo, como a inexistência de sistemas eficientes de drenagem, por exemplo.
A grama do estádio sempre ficou seca, lá a drenagem funciona. Enquanto isso, na tradicional comunidade de Mãe Luiza a terra encharcada tragou para dentro de si dezenas de casas e colocou em vias de desastre outras tantas casas ao redor. A história de vida dos moradores da rua Guanabara foi arrastada por um mar de lama e água e em segundos virou apenas lembranças daquilo que se lutou tanto para construir.
As chuvas foram bastante eficientes em expor as contradições de uma cidade que se submeteu a exigências de uma corrupta entidade internacional e inverteu as suas prioridades, investindo em modelos de obras caras e obsoletas que ampliam, no longo prazo, os problemas da cidade.
A lama que desceu a rua, também expôs a irresponsabilidade do capital imobiliário natalense que constrói projetos residenciais extravagantes em áreas já fadadas a ação do tempo. Dois prédios de luxo precisaram ser desocupados com o deslizamento. Prédios espremidos entre o avanço do mar e a instabilidade do morro. Não parece ser natural que gestores responsáveis tenham liberado uma área de sabido risco para a realização de construções tão agressivas para o meio ambiente daquela região.
Na copa do mundo em Natal a imagem que é noticiada para o mundo não é da arena de grama verde de arquitetura inovadora, sim a de um buraco gigantesco de lama e escombros. Natal é uma cidade de contradições, a copa tentou esconder muitas delas. Contudo, começou a chover.
Vereador Sandro Pimentel
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