terça-feira, 17 de junho de 2014

As contradições que a lama expõe

Natal se preparou para receber aquele que se anunciava como seu mais importante evento, a Copa do Mundo de Futebol. O que os grupos políticos tradicionais que administram a cidade não esperavam é que componentes de ordem natural seriam capazes de dissolver como uma aspirina a falsa propaganda oficial que divulgava uma cidade “padrão Fifa”  para o evento. 50 horas seguidas de chuvas revelaram o caos de uma cidade rendida a falta de políticas públicas de planejamento de longo prazo,  como  a inexistência de sistemas eficientes de drenagem, por exemplo.

A grama do estádio sempre ficou seca, lá a drenagem funciona. Enquanto isso,  na tradicional comunidade de Mãe Luiza a terra encharcada  tragou para dentro de si dezenas de casas e colocou em vias de desastre outras tantas casas ao redor.  A história de vida dos moradores da rua Guanabara foi  arrastada por um mar de lama e água e em segundos  virou apenas lembranças daquilo que se lutou tanto para construir. 

 As chuvas foram bastante eficientes  em expor as contradições de uma cidade que se submeteu a exigências de uma corrupta entidade  internacional e  inverteu as suas  prioridades,  investindo em modelos de obras caras e obsoletas que  ampliam, no longo prazo, os problemas da cidade.
A lama que desceu a rua, também expôs a irresponsabilidade do capital imobiliário natalense  que constrói projetos residenciais  extravagantes em áreas já fadadas a ação do tempo. Dois prédios de luxo precisaram ser desocupados com o deslizamento. Prédios espremidos entre o avanço do mar e a instabilidade do morro.  Não parece ser natural que gestores responsáveis tenham liberado uma área de sabido risco para a realização de construções tão agressivas para o meio ambiente daquela região.

Na copa do mundo em Natal a imagem que é noticiada para o mundo não é da arena de grama verde de arquitetura inovadora,  sim a de um buraco gigantesco  de lama e escombros. Natal é uma cidade de contradições, a copa tentou esconder muitas delas. Contudo, começou a chover. 
Vereador Sandro Pimentel

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